Sobre o meu jeito de organizar cursos e disciplinas no papel de professor. E a origem do meu estilo não linear.

Sabe que já recebi algumas advertências e cobranças por atrasos nas entregas de ementas no período que ministrei aulas em graduação e pós graduação? Eu me usava do “último momento responsável”. Ou um pouquinho mais que isso. 😛

Ao longo da minha vida em sala de aula, eu tinha o interesse de trazer o agora das pessoas presentes ali. Suas perguntas e suas demandas. Logo, eu estava sempre revisando materiais e mudando direção ao longo do semestre. Isso complica dependendo de como você opera com materiais e a estrutura de sala de aula. Eu mudava, criava slides e materiais de apoio, listas de exercícios para prática e assim era o meu caminho. E muitas vezes ia criando com as pessoas ali presentes.

Estava lembrando de algumas histórias dessa época das aulas em faculdade, e resolvi separar aqui, para falar sobre educação.

Das advertências, conta logo…

Eu tinha uma linha de trabalho em cada disciplina, com alguns conteúdos âncoras que precisava trabalhar, mas na prática as aulas poderiam ser muito diferentes em cada turma e eu estava preparado para ir em diferentes caminhos. Eu deixava a estrutura de aulas emergirem.

Só que muitas vezes me pediam as ementas “100% fechadas” semanas antes das aulas começarem. E isso nunca aconteceu comigo. 🙂

Meu processo era ter uma ementa de referência, com as âncoras, mas eu preenchia mesmo no primeiro dia de aula. Eu fazia uma visão panorâmica do conteúdo com as pessoas e depois iria evoluindo conforme a priorização. Em um outro caso, a ementa era de estilo de Challenge Based Learning. A gente tinha algo pra construir, conforme a tecnologia de cada grupo, e conforme a escolha de cada grupo. E com uma certa cadência, onde eu ia trazendo pontos de atenção para o projeto, para execução e gestão. O conteúdo (como) era totalmente livre e aberto. Dessas aulas saiu até startup! 😀

Em disciplinas de tópicos especiais também era diversão pura. Era uma forma que tinha de trazer assuntos diferentes para as pessoas, assim aconteceu com metodologias ágeis, qualidade e teste de software, governança de tecnologia e outras estruturas ligadas com arquitetura de software e paradigmas de programação.

Na pós-graduação era mais freestyle ainda. A ementa tinha as âncoras e o material era construído depois de uma aula de introdução sobre métodos agéis e princípios. Em cima disso, pessoas traziam suas perguntas e eu transformava as perguntas em tópicos, depois da priorização das pessoas participantes. E assim tinha +30 horas de aula “organizadas”, ainda com a oportunidade de criar dinâmicas e discussões extras conforme os aprendizados. Junto com isso, existia algum meio de comunicação contínua com as pessoas, por mensagens ou email, conforme a estrutura permitia.

E como começou tudo?

Esse movimento começou em 2004. Nesta época ainda tinha o hábito de organizar algumas aulas em slides, e outras usando materiais de apoio e trabalhos práticos. Uma coisa mais pronta… Tinha materiais organizados de treinamentos sobre programação, que vinha realizando desde 2002. Treinamentos entre 16 e 40 horas.

Alguns destes cursos eram de autoria, e assim tinha a chance de revisar materiais e criar novos. Só que no primeiro semestre ministrando aulas, os alunos não estavam evoluindo como eu esperava. Então resolvi mudar o jogo e trabalhar em assuntos que fariam sentido pra eles. Quase um reset no semestre. Mais prática, mais revisões, mais base.

Das minhas provas, eram praticamente com consulta no início. Depois deixei as provas serem deliberadamente com consulta. O objetivo era a prática das pessoas ali presentes, e não saber a resposta certa. Trabalhos de apoio me ajudavam também para não precisar cobrar dos alunos que eles decorassem, sabendo que na vida real pouco a gente funcionava sem apoio da internet. Hoje em dia isso só acontece de a gente perder acesso total com a internet. Eu trabalhei em lugares que não tinha internet para trabalhar, e aí era base em livros e na ajuda das ferramentas de programação.

Por 2002 já fazia parte de comunidades de prática e em 2004-2005 comecei um grupo de estudos de programação aos sábados, por rapidamente entender que não seria possível ensinar em sala de aula o que o “mercado” estava requisitando, e gostaria de poder dar sequência a base sendo trazida em sala de aula.

Eram formas de eu poder explorar o que cada pessoa gostaria de estudar e praticar, de poder ir além com projetos, ferramentas e conhecimentos de interesse.

E como meu estilo foi avançando?

Cada vez com menos slides e mais mapas mentais e conversas a partir de algo prático, algum site de referência ou artigo. Mais discussões e rodas e contar histórias. E também ouvindo histórias de pessoas participando, podendo criar reflexões e meio que fazendo engenharia reversa de histórias pensando em como resolver elas com os assuntos que estavam em discussão.

Certa vez uma pessoa perguntou porque eu não tinha uma apostila na disciplina de metodologias ágeis. A expectativa era um livro ou algo que a pessoa tinha em outra instituição de ensino. Ela queria um limite, algo fixo, pronto, fechado. E queria mais. Algo mais importante, que me deixou muito decepcionado. Ela não queria aprender com os outros colegas. Ela não estava pagando para ser ensinada pelos colegas de aula. E é verdade esse bilhete. Eu terminei essa aula e liguei pra pessoa coordenadora, avisando o que aconteceu em aula e que estava tranquilo para ser demitido caso fosse o caso, mas que eu não iria mudar a minha forma de ensinar. E só para constar, até tinha uma apostila disponível. 😀

O fato de eu não repetir palestras ajuda muito neste processo. Eu acabo por vezes usando algum material de apoio para poder puxar algum assunto, mas a base é operar no conhecimento que as pessoas trazem a partir de perguntas.

O processo de não querer funcionar com um ensino linear vem de longe. Depois da minha rebelde decisão de não querer ser palestrante profissional (por não querer repetir palestra), decido parar de palestrar e me volto para uma atuação mais interna. Monto um grupo de mentoria, onde eu poderia criar conteúdos úteis para o grupo. Passo um ano atendendo um total de 14 pessoas em duas turmas de grupo. Só isso. Não palestrei, não viajei para eventos nem nada. E foi um dos melhores anos da minha vida com relação a conteúdo. Me senti conectado, e gostei disso.

Os encontros deste grupo funcionavam através de encontros individuais, e na parte de grupo era uma forma de eu unir diferentes assuntos que estavam aparecendo nos encontros 1:1 além de poder tratar demandas que apareciam nas conversas entre encontros. O aprendizado acontecia de forma aberta, interativa e viva. Novos assuntos poderiam aparecer. Claro que eu estabelecia alguns limites. No caso eram os assuntos que eu trabalho na mentoria. Então as pessoas poderiam me pedir para explorar assuntos nessas regiões. E aconteceram algumas vezes pedidos “fora do meu círculo”. Nestes casos eu puxava apoio das próprias pessoas participantes do grupo ou ainda de convidados externos que vinham contar alguma história para conectar com as necessidades do grupo.

Perguntas, referências e estruturas que foram se desenhando com as pessoas. Essa jornada me acompanha até hoje.

E para onde vai o meu estilo?

Vejo meu processo evoluindo no formato fechado em alguns aspectos, muito para eu poder praticar estes “fechamentos”, com livros e cursos. Mesmo assim, não deixo de lado a estrutura viva e conectada. E mesmo nos fechamentos ainda crio estruturas onde consigo me conectar com as pessoas participantes e criar junto ou a partir de um novo ponto de contato.

No caso das estruturas mais vivas, vejo elas acontecendo pelos projetos de crowdfunding em português e inglês. Elas me permitem viver a comunidade e tratar de assuntos da minha prática diária.

A partir das vivências que tenho, documento e conecto com outras pessoas.

Fluído. Fluxo.

— Daniel Wildt

Extra: um labirinto pode causar um pouco de ansiedade e confusão, mas eu penso em um caminho de aprendizagem como um labirinto com diversos caminhos e diversas saídas. O não linear me aparece como um labirinto de possibilidades. Quase um mantra?

Acompanhe minha jornada de conteúdo, participando da comunidade e das entregas no projeto de crowdfunding “A filosofia da tranquilidade”, lá no apoia.se/dwildt.

Publicado por dwildt

Empreendedor / Desenvolvedor de Software / Mentor / Agilista / Escritor.

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