Tela azul e cursor criou uma vida

Eu estava no segundo ano do segundo grau quando um colega participante do grupo de iniciação científica mostrou como resolver fórmulas matemáticas usando um arquivo .pas que era executado no tal do turbo pascal. Uau, Bhaskara!

O mesmo 386 que rodou o pascal em 1994 me acompanhou até 1998 quando consegui comprar um computador novo pagando parcelas com o dinheiro da bolsa de iniciação científica. Um novo computador veio somente em 2002 quando montei uma estrutura para passar em uma prova de certificação. Papo pra outro dia. 😀

Legal olhar o poder que uma ferramenta pode ter em uma vida. A programação me trouxe até aqui.

Fatos aleatórios para você entender o 1994-2021 falando sobre ferramentas e aprendizados.

  • 1992: Eu cheguei a digitar uns programas no MSX em Basic, mas eu não sabia e nem entendi o que era.
  • 1994: Quando vi um Turbo Pascal pela primeira vez e vivi essa experiência da iniciação científica.
  • 1996: Depois deste trabalho de iniciação científica eu só voltei a rodar este arquivo .pas quando entrei na faculdade e falaram que iríamos aprender a programar em pascal.
  • 1996 (férias): eu passo as férias programando, aprendendo a fazer coisas que pareciam difíceis e tentando replicar coisas que via em interfaces de estabelecimentos que visitava. Nasce a Wildt.pas, com funções de apoio. Anos depois soube que o arquivo estava rodando outras faculdades.
  • 1996/2: Decido que quero aprender a programar, depois de quase rodar em disciplinas como algoritmos. Decido virar monitor da disciplina de algoritmos para garantir que outras pessoas não iriam travar onde eu travei. Neste semestre recebi algum dinheiro pelo semestre de trabalho. Foi o primeiro dinheiro que ganhei.
  • 1997: Eu nunca tive apenas uma linguagem acontecendo na minha vida. Pegando primeiros três trimestres de faculdade, estava aprendendo Pascal, C, C++, Assembly. No terceiro semestre de faculdade (1997) estava trabalhando em uma empresa como suporte técnico, atendendo usuários de um sistema de atendimento. Essa empresa usava Delphi. Ali eu comecei a entender o que estava acontecendo.
  • 1997: Nesta época usava o meu tempo livre para aprender sobre HTML e JavaScript, usando Netscape. Eu programava no notepad, e depois testava o que fazia quando chegava na faculdade. Não tinha internet disponível no trabalho.
  • 1997: consigo um trabalho como bolsista de iniciação científica, para trabalhar com Delphi. Tinha três semanas para aprender coisas que nunca tinha feito nem usado na ferramenta. Neste jogo seguia programando em C++ (fiz um jogo de campo minado, jogo da velha 3D) e Assembly (fiz um paintbrush e um gerenciador de arquivos que permitia compactar arquivos — até acabar com o espaço em disco do computador 😛 — foi a última vez que fiz versão de arquivos — nunca achei o defeito do compactador)
  • 1998: faço o primeiro trabalho na faculdade usando Delphi como ferramenta. Já sabia fazer algumas coisas com o Delphi. Começo a entender sobre Java. Em 1996 vi uma pessoa usando um terminal e rodando o tal do Java, mas por algum tempo, Java era um negócio para fazer applets e animações de imagem em sites.
  • 1999: saio da bolsa de iniciação científica e vou trabalhar com Delphi em uma empresa (que hoje é a uMov.me). Peço permissão para um professor e entrego um trabalho de faculdade usando Java. Diversos cursos sobre Oracle para buscar uma formação de DBA.
  • 2000: começo a escrever para a Clube Delphi, ação que sigo por bons anos. Falei sobre muita coisa, comecei escrevendo na edição 14 e na edição 32 tive um título inusitado aceito como capa, usando a frase “azar, eu gosto!” que puxei do meu amigo Eduardo Alves. Tive artigos sobre testes unitários, programação em três camadas e outros assuntos.
  • 2000: começo a participar de eventos sobre Delphi, e vejo apresentações sobre produto e palestras sobre funcionalidades. Aqui entendo sobre porque querer apresentar conceitos. Conheço o palestrante Renato Quedas. Aprendo um pouco sobre Perl e faço algumas brincadeiras para web rodando uma aplicação em Perl. 🙂
  • 2000: começo a desenvolver pra web, usando Delphi e IIS como servidor web.
  • 2001: começo a desenvolver para mobile, usando PalmOS e depois focando em desenvolver para celulares usando MIDP/JavaME.
  • 2002: passo a operar como instrutor oficial de Delphi e começo a dar aulas em um parceiro Borland na época. Renato Quedas é um dos professores. Em 2002 foi quando conheci o JUnit e também me torno instrutor de Java ensinando galera a programar em Java usando o JBuilder. Monto empresa para dar aula de Delphi e prestar consultoria. Ano que começo a participar de comunidades de tecnologia, sendo coordenador do RSJUG.
  • 2003: começo a prestar mais atenção em linux e Kylix, e acabo tornando minha máquina padrão um linux. Isso me ajudou a aprender mais. Só entrava no Windows para programar em Delphi. Começo a aprender sobre eXtreme Programming e minha jornada com Agile. Ano que fundamos a comunidade Delphi local, o DUG-RS.
  • 2004: monto empresa para dar consultoria e treinar pessoas em tecnologias de código aberto. Começo a dar aula em faculdade, ensinando pessoas a programar em Java já aprendendo sobre testes de unidade e depois testes funcionais. Em disciplinas de engenharia de software depois começo a ensinar pessoas a conhecer outras linguagens como Python e Prolog. Neste ano a comunidade Agile foi formalizada em 4 de abril, dentro de um evento do RSJUG quando conheço Guilherme Lacerda e formamos o XP-RS, que hoje é conhecido como GUMA-RS. Começo a estudar mais sobre Lean e Toyota e para me ajudar a conectar com outras iniciativas conheço mais sobre ISO 9001 (princípios de qualidade) e ISO 12207. Começo a aprender sobre testes unitários automatizados em Delphi mais fortemente com o DUnit. Em algum momento até escrevo para a ClubeDelphi sobre isso. Este ano também acontece o lançamento do Mono e eu já vinha brincando com o Delphi 8. Passo a entender mais sobre .NET, sobre C# e querer fazer aplicativos desktop multi plataforma com essa estrutura. Passo a defender o papel de testes e de automação mais fortemente. Ano intenso, e ano que começaram meus piripaques. 😛
  • 2005: ano que o DHH apresenta o Rails em um FISL. Ano que eu palestro no FISL falando sobre Kylix Open e desenvolvimento Delphi no Linux. Ano que saio mais cedo do FISL para ir assistir Star Wars Episódio III, lançado neste ano.
  • 2006: começo a trabalhar mais fortemente com Java no meu dia a dia. Consultorias com Delphi seguem também e grupos de estudos em Java na faculdade. Mistura em consultorias de código, arquitetura de software e gestão. Ano de transição para deixar as empresas e dar um reset na vida.
  • 2007-2009: Java era meu dia a dia, Delphi era assunto pelo grupo de usuários e fóruns e alguns projetos pessoais. Dentro do contexto de faculdade estava brincando com Ruby/Rails, Python e outras linguagens para prática e conhecimento básico.
  • 2009-2016: Foco total em Java, um pouco de aprendizado com Ruby (JRuby) e JavaScript (olhando também desenvolvimento mobile híbrido). Desenvolvimento Mobile volta ao foco, olhar pra JavaME, Blackberry, Android e iOS. Banco de dados volta pro meu dia a dia com o pensamento de escala. Novas skills entram em jogo, para o desenvolvimento de produtos. Passo a me ligar mais em aprendizado emergente, Design Thinking, UX, Jornadas, Personas, Métricas e assuntos conectados com esse assunto. Aqui passo a jogar 100% do tempo com Trunk Based Development, Feature Toggles e a operar em um formato de querer tornar o ciclo de desenvolvimento de software mais simples. Automação e entrega e melhoria contínua eram meu dia a dia. Neste período, em 2011, surge a Wildtech.
  • 2016: começo a olhar para mercado de chatbots, bots em Telegram, Slack e outras plataformas. Me vejo querendo aprender mais sobre analytics e métricas. Ano que lancei os grupos de mentoria e passo a operar internamente e cada vez menos aparecendo em palestras e atividades públicas.
  • 2017-2018: esse tempo foi louco. Aprendi a operar como conselheiro de uma das empresas que ajudei a fundar, e descobri que poderia ser amigo dos meus sócios.
  • 2019: Olá, Go. Início dos pensares sobre o mais.dev através da iniciativa open hacks, e conexão com grupos de aprendizagem para prática de programação. Lançamento dos projetos desenlatar e treine basquete. No final do ano digo que quero voltar a focar em treinamentos, mas em atuação online. Mal sabia o que 2020 estava preparando.
  • 2020: fico envolvido com projetos internos, retomando prática de Java, Kotlin, Go, alguns frameworks Web, mas nada efetivo novo em produção. Foco muito interno e nas empresas olhando sustentação. Lançamento de alguns livros e treinamentos.
  • 2021: volta aos estudos de Rails (estado atual). E eu tô só começando, como gosto de pensar. Tem muito mais coisa que não sei e que quero aprender.

Provavelmente errei em algumas datas, e considero que 2003-2005 foram anos muito importantes no meu crescimento profissional. Foi um dos que mais trabalhei e aprendi conceitos que hoje me permitem avançar rapidamente para outros caminhos.

Ali também foi quando entendi que ser especialista de uma única coisa não iria rolar. Precisava saber falar sobre Delphi, sobre Java, saber melhorar processos de empresas, atuar para organizar equipes usando eXtreme Programming, cuidar de qualidade e facilidade de entrega de software… foram os anos que entendi que o caminho do generalista estava acontecendo para mim, apesar de acumular algumas certificações nesta época que me mantinham no foco de estudo de alguns assuntos mais que outros.

Importante a gente saber que quanto mais vive, menos a gente vai saber e mais perguntas vão ficando em aberto. E por isso a importante de poder priorizar e escolher o que queremos nos desenvolver e aprender.

— Daniel Wildt

Extra: este post acontece porque celebro os 50 anos do Turbo Pascal que ocorreu em março de 2021. E todo aprendizado que veio desde que comecei a programar.

Publicado por dwildt

Empreendedor / Desenvolvedor de Software / Mentor / Agilista / Escritor.

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